Jornal do Commercio

EMPREENDEDORISMO

Bel Pesce: 'O Vale permite errar'

Paulistana é um dos destaques da Campus Party

Jacques Waller

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"Desde cedo, eu já empreendia. Comprava miçangas e fazia bijuterias. Eu desmontava e montava computadores e doava-os para ONGs", conta Bel
Ayla Safir/Divulgação

Com apenas 24 anos, a paulistana Bel Pesce conquistou o Vale do Silício, capital mundial da tecnologia, onde, segundo ela, “errar é permitido”. A empreendedora é uma das atrações do sábado da Campus Party, onde lança o livro  menina do Vale. A Jacques Waller, ela contou como entrou no Massachusetts Institute of Technology (MIT) aos 17 anos e por que preferiu montar a Lemon, focada em apps financeiros para smartphones, a trabalhar para Google e Microsoft.

 

JC – Apesar de jovem, você tem um currículo invejável. O que a levou a empreender?

BEL – É engraçado, o termo empreendedor só vim aprender mais tarde. Mas desde cedo, eu já empreendia. Comprava miçangas e fazia bijuterias. Eu desmontava e montava computadores e doava-os para ONGs. E na minha família ninguém era assim. Acho que tudo foi por causa de uma mistura de curiosidade, iniciativa e perseverança. Mas tenho muito o que fazer ainda.

JC – Em seu livro, você dá várias dicas para jovens empreendedores. Por ter 24 anos, não sente o peso da responsabilidade?

BEL – Sempre tento melhorar a cada dia. Tenho, aliás, o hábito nerd de escrever tudo o que aprendi no dia. Comecei a pensar que naquelas anotações tinha muita coisa que podia ser útil para outras pessoas. Então, resolvi fazer um sumário do que aprendi. Nunca pensei em assumir um papel de conselheira, nem quis fazer um livro técnico. Acho que tem muita coisa mistificada no empreendedorismo, principalmente o glamour. Na verdade, empreender é muito difícil e quis dizer isso, até para que as pessoas não desistissem.

JC – Como conseguiu entrar no MIT aos 17 anos?

BEL – Por causa de minha paixão por matemática, consegui uma bolsa em uma excelente escola de São Paulo, uma escola militar. Me preparava para fazer vestibular para o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), mas um dia meu professor Edmilson, a quem agradeço muito, me disse que aquela faculdade era boa, mas não tinha nada a ver comigo. Então ele me mostrou um panfleto do MIT. Eu nunca tinha ouvido falar no MIT. Decidi tentar. Só que quando fui ver, faltavam apenas duas semanas para a prova. O que é pior, havia perdido várias etapas intermediárias, como ser entrevistada por um ex-aluno do MIT.


Descobri que havia um em São Paulo e resolvi bater na porta dele com uma caixinha de papelão. Nela, coloquei tudo que eu já tinha feito na vida. Acho que ele achou aquilo fofinho e me indicou. Mas não havia mais vagas para a prova. Ainda assim, decidi esperar na porta para ver se alguém faltava. Cheguei a ser expulsa da sala e a fiscal alemã disse que nunca tinha visto alguém faltar ao último teste do MIT. Mas faltou uma pessoa nesse dia. Foi um misto de sorte e insistência. Três meses depois, recebi a carta de aprovação.

JC – E como é estar no Vale do Silício?

BEL – Tem os seus prós e seus contras. O Vale tem um jeito de pensar que é muito legal. O lugar tem histórias intermináveis de sucesso. Isso te ajuda a dar certo. No Brasil, há essa mentalidade de que se você errar quando for jovem, aquele erro te marcará para a vida toda. Aqui é o contrário. Errar faz parte. Muita gente errou e por causa disso fez sucesso. Por outro lado, é um ambiente extremamente competitivo. Dar certo aqui é mais difícil que em qualquer lugar do mundo. Há disponibilidade de talentos, capital, monitoria, de tudo. Mas você concorre com milhares de pessoas. Tem que ter muito foco. Enfim, é muito legal.

JC – Você poderia ter escolhido empreender na Microsoft ou no Google, onde trabalhou. Por que escolheu ter a própria empresa?

BEL – Desde que cheguei nos Estados Unidos, quis pagar minhas contas. Trabalhei no próprio MIT e, depois, na Microsoft, Google, Deutsche Bank e em várias startups. Com 22 anos, já gerenciava três times de desenvolvimento em uma empresa. Mas tinha meus próprios projetos e senti que o que eu estava fazendo não era a minha praia. Queria ter algo meu. E aí conheci Wences Casares, um executivo a quem admirava muito. Apresentei uma ideia e ele topou criar a empresa comigo. Hoje somos 21 pessoas, temos uma filial em Buenos Aires e nosso aplicativo foi baixado 1,5 milhão de vezes desde outubro passado.

JC – Como vê o mercado brasileiro de tecnologia?

BEL – O Brasil vive um momento muito especial. Os investidores americanos estão enlouquecidos. Todos querem conhecer o Brasil. O comércio eletrônico nacional está muito bem, há muita oferta de crédito e, o que é mais importante, o brasileiro é um povo apaixonado por tecnologia. Claro que há muita coisa para se fazer, especialmente no que diz respeito à infraestrutura. Mas assim que as empresas conseguirem saída para seus produtos, tudo mudará para sempre no País.

JC – Pretende voltar algum dia para cá? Aonde quer chegar?

BEL – Sim. Quero muito voltar. Mas por enquanto minha história é nos Estados Unidos. E quero continuar tocando vidas com os produtos que desenvolvo. Tenho muito chão ainda pela frente.

 


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