Jornal do Commercio

Minas e Energia

O futuro do setor elétrico no Brasil

O almirante Bento Costa Lima Leite de Albuquerque Junior vai comandar Minas e Energia. Será o sétimo militar no 1º escalão

Angela Belfort
Com informações de agências

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A escolha do almirante agradou, num primeiro momento, os diferentes grupos que disputavam a indicação para a pasta
A escolha do almirante agradou, num primeiro momento, os diferentes grupos que disputavam a indicação para a pasta
Foto: EBC

As primeiras palavras ditas pelo futuro ministro de Minas e Energia (MME), o almirante Bento Costa Lima Leite de Albuquerque Junior, chamaram a atenção de quem acompanha o setor elétrico. Segundo o militar – o sétimo no primeiro escalão do novo governo –, é um segmento que “precisa, acima de tudo, de um ambiente de confiança e previsibilidade, tanto para os mercados, quanto para o cidadão consumidor”. Confiança e previsibilidade são características que se afastaram há pelo menos seis anos do setor.

O MME tem pelo menos duas grandes estatais: a Eletrobras – dona da Chesf e outras subsidiárias – e a Petrobras. Ambas passaram por iniciativas que alteraram seus lucros e, em muitas vezes, por práticas pouco republicanas que culminaram, por exemplo, em alta dos preços da conta de energia e no esquema bilionário de propina revelado pela Operação Lava Jato, envolvendo políticos de quase todos os partidos e diretores da petroleira. 

A escolha do almirante agradou, num primeiro momento, os diferentes grupos que disputavam a indicação para a pasta. Estavam na disputa o deputado federal Jaime Martins (Pros-MG), que teria sido indicado pelo próprio presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL); Paulo Pedrosa, ex-secretário-executivo do MME, que trabalhou na sua gestão para privatizar a Eletrobras no governo do presidente Michel Temer (MDB); e Adriano Pires, especialista na área e fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) e especialista na área. 

O atual ministro Moreira Franco (MDB-RJ) elogiou a escolha. “O presidente Bolsonaro acertou na indicação do Alm. Bento para o MME. Muito bem preparado para as responsabilidades técnicas e de comando do setor. Conhece o funcionamento e os desafios da convivência no parlamento e é de uma família de super dotados. Ricardo Paes de Barros, economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor do Insper, é seu irmão”. 

Antecessor de Moreira, o deputado pernambucano e ex-ministro do MME, Fernando Coelho Filho (DEM) elogiou a decisão. “Conheço o almirante Bento. É muito preparado. Me recebeu em visita ao centro tecnológico da Marinha em Aramar (em São Paulo)”, afirmou. 

O futuro ministro atuou como assessor parlamentar do gabinete do Ministro da Marinha no Congresso Nacional e secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação da Marinha. 

A oposição também elogiou. “É mais um ministro que vem das Forças Armadas a qual geralmente tem um olhar estatizante das áreas estratégicas. E a energia é uma delas. A nossa expectativa é de que isso consiga reduzir o impacto das privatizações defendidas pelo futuro ministro da Economia, Paulo Guedes”, afirma o deputado federal Danilo Cabral (PSB), presidente da Frente Parlamentar em Defesa da Chesf.


O grupo participou de uma articulação que contribuiu para que a estatal não fosse privatizada no governo Temer. A proposta tinha que ser aprovada pelo Congresso Nacional, mas foi perdendo força, devido, principalmente, à proximidade das eleições de 2018. Pauta foi considerada impopular até por parlamentares da base de Temer que, aos poucos, foram deixando de apoiar o projeto. “A Frente Parlamentar em Defesa da Chesf será renovada na próxima legislatura”, garante Danilo.

Outro fator elogiado técnicas é o fato do futuro ministro pertencer a uma linha mais técnica. “É uma pessoa com alta capacidade de gestão, trabalha na essência do desenvolvimento de tecnologia nas área de submarino nuclear e enriquecimento de urânio, entre outras”, explica o consultor do setor elétrico, Carlos Mariz, ex-diretor regional da Eletronuclear no governo do presidente Lula (PT). 

DESAFIOS

O fato é que a política não fez bem a várias estatais do setor elétrico. Como exemplo, a subsidiária nordestina da Eletrobras, a Chesf, que apresentava lucros até 2012, quando por uma canetada da então presidente Dilma Rousseff (PT) passou a vender a energia mais barata, a partir de 2013, para cumprir a Medida Provisória 476 – que depois se transformou na lei federal 12.783. Ambas tinham o objetivo de reduzir a conta de energia dos brasileiros em 20%, o que nunca ocorreu. Mas voltando ao preço da energia, em março deste ano, a Chesf vendia o megawatt-hora (MWh) de energia por R$ 9,00, enquanto naquele mesmo mês, o MWh de energia era comercializado 16 vezes mais caro por outras empresas do setor. Ou seja, o motivo que mais contribuiu para a Chesf ficar deficitária foi justamente a diminuição do preço da energia que ocorreu por motivo político.

Além de “arrumar” a Eletrobras, especialistas do setor esperam que nomes técnicos ocupem os cargos de secretários, logo abaixo do ministro. Em nota, o presidente da Associação Brasileira das Distribuidoras de Energia (Abradee), Nelson Leite, elogiou a indicação e disse esperar pela “formação de uma equipe técnica qualificada, que preze pelo diálogo e a boa convivência e continue o trabalho iniciado nas gestões anteriores”.

Também são desafios aumentar a produção de energia de geração distribuída no País (aquela gerada próxima ao consumo, como por exemplo no telhado de uma residência), fazer um bom gerenciamento dos recursos hídricos, trazer inovação e diminuição dos custos de um setor que nunca consegue explicar direito o cálculo da conta de luz aos seus cidadãos. 

Carioca, Bento começou sua carreira na Marinha em 1973. Hoje, ocupa o cargo de diretor-geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha. Além de sua formação naval, possui pós-graduação em Ciências Políticas na Universidade de Brasília (UnB), MBA em Gestão Internacional na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e MBA em Gestão Pública na Fundação Getúlio Vargas (FGV).

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