Jornal do Commercio

ENTREVISTA

Rapper Karol Conka fala sobre vida e carreira

Ela se apresenta neste sábado (1º) no Clube Metrópole, às 22h, ao lado do DJ Hadji

Do JC Online

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A rapper curitibana Karol Conka
A rapper curitibana Karol Conka
Foto: Divulgação

“Vim do gueto pronta pra aguentar”, dispara a rapper curitibana Karol Conka na música Gueto é Luxo. Num mundo onde, fatalmente e ainda, há espaço para racismo, machismo e outros preconceitos sociais, aguentar é se sobressair. Karoline dos Santos Oliveira começou a ser “Karol com K” ainda na escola, chamada pela professora, para distinguir de uma outra Carol que havia na turma. Hoje, adulta e com um prêmio Multishow de Artista Revelação 2013 (desbancando nomes como Anitta, Clarice Falcão e Strobo) continua se diferenciando – por tudo isso e não somente: pelo nome, cabelo rosa ou performance altiva; pelos versos e voz segura e marota, sobretudo no palco, onde sobe acompanhada apenas de um parceiro – o DJ Hadji. “Andando por entre os becos”, cantando os versos da difundida música Boa Noite, a dupla se apresenta neste sabado (1º), no Clube Metrópole, às 22h.


JORNAL DO COMMERCIO - Karol, quando o "Conka" começou a pegar no seu nome?
KAROL CONKA - Começou com o meu pai, que fazia questão de ser Karolina com K. E ele sempre me falava: diga para as pessoas: "meu nome se chama com k" A professora tambpem falava e todo mundo chamava assim e eu me apresentava e todo mundo chamava "Karol com K". Quando fui pra baladinha, lá pelos 16, 17 anos, uma amiga escreveu do jeito que eu uso hoje e eu achei legal.

JC - E como se deu os primeiros contatos com o palco e com o rap?
KAROL -
Eu já subia no palco com 13, 14 anos para dança contemporânea. Um rapaz me conheceu no colégio e me colocou para abrir o show de uma banda de Brasília e foi super legal. Nunca mais consegui. Comecei a escrever música, poema, quando eu tinha uns seis anos e eu tinha acabado de aprender a escrever. Eu lembro até hoje como era rimar uma palavra com outra e criar um sentido através daquela rima. Sempre quis ser cantora. Achei que não tinha voz, me subestimava, achava que não ia rolar.

JC - Laurin Hill está entre seus ícones. Qual é a importância das referências e quais são as suas?
KAROL -
Eu acho que toda mulher negra do Brasil precisa ter uma referência porque a gente está o tempo todo sendo rebaixada de alguma forma, mesmo que invisível, ela está ali. É triste, pois é visto como vitimismo quando a gente relama. Eu precisava me inspirar. É lógico que tinha outras cantoras negras, mas não era do estilo que puxava a minha cabeça, tão jovem. Eu parei de alisar o meu cabelo e deixei crescer, me sentia linda, para ficar parecida com ela. Eu parava tudo para vê-la, e eu vi quanto era importante. O ser humano precisa ter uma referência, a vida inteira. É muito importante falar de Sandra de Sá, Elza Soares, Paula Lima, das pessoas que ouvia quando era pequena. Eu não sou menos porque sou negra.


JC - Em uma de suas últimas entrevistas você falou sobre as roupas que usa, pois "gosta de chamar atenção", "quando as pessoas estranham". Como você prepara o figurino, cabelo, maquiagem? Alguém te ajuda nas escolhas?
KAROL -
Eu não gosto de contar com ajuda de personal style. Trabalhei uma vez, é importante, mas no meu caso, trabalho em casos especifícos. Mas eu gosto de eu mesma me produzir. E durante o dia, uso as mesmas coisas. Tem roupa que uso no dia a dia. Não uso padrão de artista, não me preocupo neste ponto. O mais importante é estar me sentido bem. Gosto de me vestir de uma maneira legal, de me ver no espelho. Se eu contar com a ajuda de um personal, metade da minha personalidade pode ser ofuscada por uma pessoa que talvez não me entenda. Quem melhor do que eu pra me para me maquiar, me vestir?

JC - O teu rap não ganhou apenas o Brasil, mas o mundo. Além de várias turnês em outros continentes, há o reconhecimento da crítica internacional, bem como parcerias e participações especiais. Como você lida com essa movimentação?
KAROL -
Eu acompanho. A produção me passa tudo, fico bem emocionada. Principalmente por ouvir que isso jamais seria possível. E não ouvi apenas de uma pessoa, ou de duas. É natural do ser humano dizer que não vai dar certo. Me desfoquei desse tipo de energia e foquei com a cabeça lá fora. Quando essa notícia chega pra mim, recebo com os pés no chão. Não é arrogância. Trabalhei pra isso, o reconhecimento chegou; e bola pra frente, tenho mais trabalho pra fazer. Quero mostrar que podemos viver fora do padrões.

JC - Já faz algum tempo desde o disco Batuk Freak, dois anos. Como anda o teu processo criativo no momento, o que passa pela sua cabeça; a que pés está o andamento de um novo trabalho?
KAROL -
Tenho ouvido uns vinis que comprei quando estava em turnê por Paris, em 2014. Estou trabalhando com Tropkzilla e Boss in Drama e outros dois produtores que ainda não bati o martelo. Pego tudo o que eu gosto, tudo que eu acho vai bater comigo, que vai me arrepiar. Movimentos musicais, frases, refrões. Passo para os produtores de confiança, pois busco a amizade no trabalho, para manter uma energia boa do disco. Prefiro demorar porque é um processo todo fofinho mesmo. Eu gosto de namorar, de me envolver com o álbum, e esse vai vir cheio de coisas minhas, da minha vida, do meu cotidiano. Com esse álbum, eu vou mostrar mais quem é a Karol, e não virá feito o Batuk Freak, mas a essência continua a mesma. Então eu vou deixar toda a minha personalidade ai. 

JC - Como funciona a relação com os fãs? Quais são os ambientes de interação com eles (real, virtual)?
KAROL -
Gosto de interagir com os meus fãs, sobre o que eles gostariam de saber. Isso acontece nas redes sociais, no camarim, na rua. Eu converso com eles, e tá tudo bem. Eles têm uma liberdade e sentem essa liberdade  comigo, de poder opinar. Eu faço aquilo que eu realmente quero fazer, mas gosto de ouvir opinião também. Não nasci sabendo tudo.


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