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FIT Rio Preto 2019: 'Domínio Público' enfrenta espectro da censura

Peça reúne artistas vítimas do conservadorismo e tem discurso poderoso

Márcio Bastos

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Maikon K chegou a ser detido durante performance de 'DNA de DAN'
Maikon K chegou a ser detido durante performance de 'DNA de DAN'
Vivian Gradela/Divulgação

Em 1911, o italiano Vincenzo Peruggia roubou a Mona Lisa do Louvre. Até então, a obra de Leonardo da Vinci era só mais uma em uma sala com outros tantos trabalhos renascentistas. Com o escândalo, porém, começou-se a construir outra relação afetiva (e midiática) com o quadro, tornando-o uma das imagens mais emblemáticas da história. A partir da imagem da Gioconda, Elisabete Finger, Maikon K, Renata Carvalho e Wagner Schwartz, artistas que tiveram trabalhos censurados nos últimos anos, constroem Domínio Público, potente trabalho sobre arte e política no Brasil atual.

Apresentado como uma espécie de conferência, com cada artista sozinho no palco, tendo apenas uma reprodução da Mona Lisa ao Fundo, o espetáculo se desenvolve a partir das sutilezas. Os episódios de repressão sofridos pelos artistas nunca são trazidos diretamente, apesar de estarem presentes a todo momento na dramaturgia, que é muito bem construída. A criação de da Vinci se mostra um excelente catalisador para discutir questões como gênero, liberdade, conservadorismo.

Como conferencistas, extremamente contidos e elegantemente vestidos, os artistas provocam a construção social e midiática em torno de suas figuras. Rememorando: em 2017, Wagner Schwartz sofreu linchamento virtual e foi vítima de notícias falsas porque durante uma sessão da performance La Bête, na qual se apresenta com o corpo nu, uma criança tocou sua perna. A mãe da criança, Elibete Finger, também foi duramente atacada pelos conservadores.


Já Maikon K teve sua performance DNA de DAN interrompida por policiais, em Brasília, acusado de ato obsceno. A atriz Renata Carvalho, uma mulher trans, também foi vítima de repressão e teve seu solo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu censurado em várias cidades, inclusive no Recife, durante o Janeiro de Grandes Espetáculos e no Festival de Inverno de Garanhuns. Por questões pessoais, Renata não pode estar presente no FIT Rio Preto, mas seu segmento foi apresentado através de vídeo.

Domínio Público instiga uma reflexão sobre como a arte sempre foi usada como bode expiatório em tempos de crise e como os artistas continuam sendo criminalizados justamente por provocarem as convenções sociais. Há um caráter provocador na obra, ao mesmo tempo em que convida a plateia à reflexão e ao diálogo. Após o espetáculo, não eram poucos os comentários sobre o conteúdo do trabalho, fosse por identificação das minúcias ou pela estranheza. Em um momento de pouca alteridade, este convite à dialética se faz ainda mais necessário.

GÊNERO, UMA CONSTRUÇÃO

Também levando para o centro da cena questões de gênero e de liberdade, a performer ganesa Va-Bene Fiatsi, de pseudônimo crazinisT artisT, coloca seu corpo como instrumento de questionamento e revolução em Strikethroug. A artista questiona a binaridade de gênero a partir de suas memórias e traumas. Processos como o controle de fronteiras no aeroporto se tornam ativadores de questões profundas em relação à forma como a sociedade lida com a questão de gênero e as diferenças.

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