Jornal do Commercio

Saúde

Recém-formados: só 28,3% querem trabalhar em unidade básica de saúde

Condições ruins de trabalho e deficiência na abordagem do curso geram apagão de médicos voltados à atenção primária

Cinthya Leite

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Pesquisa do CFM mostra que 80% dos recém-formados pretendem fazer residência médica após a graduação
Pesquisa do CFM mostra que 80% dos recém-formados pretendem fazer residência médica após a graduação
Guga Matos/JC Imagem

O aumento da procura por registro profissional após o edital mais recente do Mais Médicos fez Conselhos Regionais de Medicina montarem uma força-tarefa para emitir milhares de CRM – sigla que nomeia a cédula de identidade médica, um documento obrigatório que atesta legalidade do exercício da função. A abertura de vagas no programa provocou uma corrida de recém-formados, que teoricamente, em sua maioria, gostariam de fazer residência médica e não teriam a expectativa de início imediato da prática médica após a colação de grau nem de trabalhar em unidades da atenção básica de saúde – uma área onde atuam os profissionais do Mais Médicos. As perspectivas profissionais dos concluintes colocadas à tona na pesquisa Demografia Médica 2018, do Conselho Federal de Medicina (CFM), deixam transparecer que a realidade atual percorre na contramão dos desejos de recém-formados, que – em parte – têm auxiliado a preencher vagas da atenção básica, especialmente em áreas de maior vulnerabilidade social.

O levantamento revela que só 28,3% têm a unidade básica de saúde como local de trabalho de preferência. Por outro lado, segundo o levantamento do CFM, quase metade dos egressos (46,7%) alega que optaria por trabalhar no setor público, desde que tivesse padrão de remuneração e condições de trabalho equivalentes ao privado – setor escolhido por 12,2%. Para 41,1%, é indiferente atuar em qualquer uma das duas áreas.

“Se esses parâmetros fossem semelhantes, optaria pelo setor público, que pode proporcionar estabilidade. É uma área em que ajudaríamos quem mais precisa. Hoje, um dos problemas é a falta de estrutura para se trabalhar na atenção básica. Não há insumos mínimos e faltam medicamentos. Em alguns casos, não há disponibilidade para se indicar um exame. Como fechar um diagnóstico nessas condições? E assim a gente não vê a vida do paciente mudar”, relata o médico Gustavo Ferreira, 26 anos, que colou grau no último dia 21. 


Assim como a maioria dos recém-formados, ele quer cursar residência médica. A pesquisa do CFM mostra que 80% dos egressos pretendem seguir esse caminho após a graduação. Mas Gustavo também deseja atuar na Marinha, no Exército ou na Força Aérea. “Farei a prova da residência em cirurgia geral. Se selecionado, tranco o primeiro ano para atuar nas Forças Armadas”, diz. Depois, ele tem a opção de seguir com o curso e manter o vínculo com o serviço militar. A especialidade que ele pretende seguir é a terceira mais desejada para residência médica: tem a preferência de 8,8% dos egressos (a primeira é pediatria, com 12,3%). A pesquisa ainda destaca o fato de medicina de família e comunidade ser uma das especialidades com ampliação da oferta de vagas de residência médica, mas que é a primeira opção para só 1,5% dos recém-formados, abaixo da cirurgia plástica, prioritária para 2%.

A crise que emergiu recentemente no Mais Médicos colocou em evidência a importância da medicina de família e comunidade, que congrega médicos atuantes em postos e outros serviços de Atenção Primária em Saúde. É um profissional que olha a pessoa de maneira integral, não só na doença. Por isso, é capacitado para compreender sentimentos e expectativas dos pacientes, com a missão de identificar que a doença pode impactar a vida pessoal, familiar, profissional e social. “Nos currículos do curso de medicina, é regra os alunos transitarem por essa área da atenção básica, que hoje precisa ter a complexidade do trabalho resgatada. É uma especialidade que exige menos tecnologia, mas requer uma habilidade do médico para lidar com doenças frequentes, sem deixar de analisar questões sociais e psicológicas (da comunidade atendida). Tudo isso exige um grau de formação que não está presente como efeito finalístico nas escolas de graduação”, ressalta o médico pediatra Jailson Correia, secretário de Saúde do Recife.

Saúde coletiva

Presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), a médica epidemiologista Gulnar Azevedo sublinha que a experiência vivida no Brasil com os médicos cubanos foi essencial para trazer um debate sobre a formação humanística. “Eles fizeram outro tipo de relação na atenção básica: escutavam e acompanhavam de perto os problemas da população.” Para ela, a formação médica no País ainda é muito voltada à especialização. “A abordagem focada no trabalho em postos de saúde, por exemplo, ainda é pouco valorizada. Para isso mudar, são necessários tempo, incentivo e melhores condições de trabalho”, acrescenta Gulnar, sem deixar dúvidas sobre a valia da cobertura pública universal e igualitária em saúde. “Defendo o SUS (Sistema Único de Saúde), pois é o melhor modelo que se pode ter. Mas é preciso mudar a lógica de formação de recursos humanos, investir em plano de carreira e em condições dignas de trabalho”, conclui a epidemiologista.

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