Jornal do Commercio

Saúde

'A maternidade parece um campo de batalha', denuncia médico sobre o Hospital Barão de Lucena

Demanda na maternidade do Hospital Barão de Lucena é sete vezes maior que número de leitos

Cinthya Leite

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Médicos denunciam a superlotação da maternidade do Barão de Lucena, onde muitas mulheres ficam no corredor do bloco cirúrgico
Médicos denunciam a superlotação da maternidade do Barão de Lucena, onde muitas mulheres ficam no corredor do bloco cirúrgico
Divulgação

Unidade da assistência à saúde de alta complexidade e referência no pré-natal de alto risco em Pernambuco, o Hospital Barão de Lucena (HBL), no bairro da Iputinga, Zona Oeste do Recife, está com a maternidade superlotada, comprometendo o atendimento às gestantes que esperam o parto e às mulheres no pós-parto. Os recém-nascidos também sofrem com a precariedade e a falta de estrutura, pois muitos não conseguem ser acomodados em berços e dividem a maca com suas mães – uma situação que favorece o risco de quedas para os bebês.

Relatos de profissionais que trabalham no HBL denunciam uma demanda sete vezes maior que a capacidade de leitos. “Num espaço onde devem ser acomodadas até sete mulheres, há até 50 em atendimento. Por isso, muitas ficam no corredor do bloco cirúrgico, que era para ser livre e servir apenas de passagem. Essa concentração vem perdurando há muito tempo. Há médicos que adoecem por essa sobrecarga. É preciso descentralizar a assistência (à gestante) de alto risco”, revela uma das médicas do hospital.

Alto risco é a nomenclatura para situações em que a saúde e a vida da mulher e do feto (ou do recém-nascido) têm mais chances de ser abaladas durante a gestação, o parto e o pós-parto. “Essa superlotação é um cenário comum também nas demais maternidades de alto risco do Estado. O mais sério é que não dá para oferecer assistência de qualidade dessa maneira”, acrescenta.

Entre as maternidades da rede pública de saúde, a do HBL assume a sexta posição entre as dez unidades que mais realizam partos em Pernambuco. No ano passado, foram feitos 4.254 partos no hospital – uma média de 350 procedimentos do tipo por mês, entre cesarianas e partos vaginais, segundo dados divulgados pela Secretaria Estadual de Saúde (SES), com base no Sistema de Informações Hospitalares (SIH) do Sistema Único de Saúde (SUS).

“A maternidade está parecendo um campo de batalha; um caos absoluto. É temerário e chega a ser irresponsável querer que se preste assistência médica minimamente adequada às gestantes, que ficam amontoadas. Não há nem espaço físico para fazermos uma avaliação mais adequada, o que impõe falta total de privacidade para as pacientes”, denuncia outro profissional do HBL.


Entre as cinco unidades que despontam antes do HBL com maior volume de partos realizados, quatro são para atendimento a gestações de alto risco. A primeira posição é ocupada pelo Hospital Dom Malan, em Petrolina, Sertão do Estado, que realizou 7.158 partos em 2016. Em seguida, vem o Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip), com 5.742 procedimentos do tipo. O terceiro que mais realiza partos (5.543) é o Hospital Jesus Nazareno, em Caruaru, no Agreste, seguido pelo Hospital do Tricentenário (este é de baixo e médio riscos). A quinta que mais faz partos é o Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam), cujas cirurgias chegaram a ser suspensas recentemente, por cinco dias, devido a um surto infeccioso na maternidade, que fica no bairro da Encruzilhada, Zona Norte do Recife. Ano passado, o Cisam realizou 4.665 partos.

O Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe) realiza rotineiramente fiscalizações nas unidades de saúde, incluindo as maternidades. Recentemente fez vistoria no HBL e constatou que, além da precariedade no atendimento às gestantes e aos recém-nascidos, o hospital apresenta problemas na emergência pediátrica. Em um dos espaços, com sete leitos, estavam 15 pacientes. “E a maternidade do Barão de Lucena tem uma realidade (de superlotação) igual ou pior que a do Hospital Agamenon Magalhães (HAM). O problema maior é que, de outubro do ano passado até agora, muitas maternidades municipais (de baixo e médio riscos) fecharam. As demais, de alto risco (como HBL e HAM), passaram a receber as gestantes dessas cidades”, destaca o médico Sílvio Rodrigues, secretário do Cremepe e coordenador das fiscalizações.

Outro detalhe, segundo Sílvio Rodrigues, é que o Hospital da Mulher do Recife (HMR), no Curado, Zona Oeste da cidade, continua sem atender gestantes de alto risco, o que também favorece a superlotação das maternidades. A previsão é de que a unidade passe a receber essas mulheres até o fim do ano. Em 2016, o hospital contabilizou 1.477 partos, assumindo a 22ª posição dos estabelecimentos que mais fazem partos no Estado.

Demanda alta  

Em nota, a SES afirma que “reconhece a grande demanda nas maternidades da rede estadual de saúde. Importante ressaltar, no entanto, que, nos últimos dias, a situação foi agravada pela suspensão temporária do bloco cirúrgico do Cisam, que foi reaberto na terça-feira (13). Ainda assim, nenhuma das unidades do Estado recusa pacientes, mantendo suas portas abertas e garantindo a assistência a todas as mulheres que dão entrada”.

A SES ainda destaca que, dos mais de 100 mil partos realizados pelo SUS anualmente, em Pernambuco, 60% acontecem na rede de maternidades do Estado. Para ampliar a assistência às gestantes de alto risco, a secretaria acrescenta que o Estado tem atuado na implantação do pré-natal de alto risco, principalmente no interior, nos hospitais regionais e nas Unidades Pernambucanas de Atenção Especializada (UPAEs). “O objetivo é reduzir o número de internamentos excessivos por causa de problemas na gestação. Também para descentralizar a assistência ao parto, foram retomadas as obras do Hospital da Mulher do Agreste, que deve ficar pronto já em 2018”, informa a secretaria.

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