Jornal do Commercio

Cidadania

Crianças de 0 a 6 anos querem ter vez e voz nas cidades

Projeto Ciranda dá visibilidade às necessidades das crianças na primeira infância. Objetivo é melhorar as políticas públicas voltadas para essa faixa etária

Ciara Carvalho
ciaracalves@gmail.com

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Em Campo Grande, no Recife, geloteca garante a leitura das crianças da comunidade Cidade de Deus
Em Campo Grande, no Recife, geloteca garante a leitura das crianças da comunidade Cidade de Deus
Foto: Guga Matos

A pracinha da comunidade 27 de Abril, no Ibura, Zona Sul do Recife, a rigor, nem pode ser chamada de pracinha. O mato toma conta do canto que deveria ser o parquinho. O que sobrou dos raros brinquedos está quebrado, enferrujado. No improviso, um campinho é aberto para garantir, pelo menos, o bate-bola dos peladeiros. Quem reclama com propriedade é Ícaro Luan da Silva, 11 anos. “Hoje está tudo acabado, aí não dá para a gente brincar.” Ouvir o que crianças como Ícaro e ainda menores do que ele têm a dizer é o ponto central do Projeto Ciranda, um movimento da sociedade civil criado para dar visibilidade às necessidades da primeira infância e garantir o direito à cidade para as crianças de 0 a 6 anos. A lógica é simples: uma cidade mais segura e adequada para as crianças pequenas também será para as maiores e, por tabela, para todos.

E, apesar da pouca idade, elas fazem questão de dizer o que é mais importante para elas. Na comunidade Cidade de Deus, em Campo Grande, Zona Norte da capital, a reforma da pracinha levou em consideração os brinquedos que as crianças mais queriam e as atividades preferidas. Na última quinta-feira, quando a reportagem esteve na comunidade, a roda de conversa foi sobre racismo. As crianças maiores leram para as menores. A geloteca do projeto, cheia de livros, não parava fechada. “Conversamos, de uma forma lúdica, sobre os assuntos que dizem respeito à vida deles, à construção da autonomia. Isso reforça também a autoestima dos pais”, diz Yane Mendes, que comandava a oficina de leitura.

Ibura e Campo Grande são dois dos bairros onde o Ciranda ganhou vida. O terceiro local é Peixinhos, em Olinda, na Região Metropolitana do Recife. Em comum, os moradores dessas áreas reivindicam uma atenção maior à primeira infância, com a oferta de mais creches, espaços públicos de lazer adequados, acessibilidade no transporte e melhoria nos serviços de saúde.

“A primeira infância é um público invisibilizado quando se pensa no direito à cidade. Existe uma ideia de que a criança não pode falar por si, geralmente a gente tem que consultar os pais para entender os direitos dos pequenos. Mas o Ciranda entende que essas crianças são portadoras de seus direitos também. O que a gente precisa é criar métodos para escutá-los”, explica Ilka Guedes, articuladora do projeto e integrante da ActionAid Brasil, que faz a coordenação executiva da iniciativa.

Em cada bairro, as atividades ficam a cargo de ONGs que já desenvolviam ações com os moradores dessas localidades. No Ibura, quem está à frente é a Etapas, que promove os encontros no Conselho de Moradores da comunidade 27 de Abril. Os meninos e meninas se reúnem em dias diferentes da semana, de acordo com a faixa etária. “Se não fosse esse espaço, não tínhamos onde brincar”, reforça Isabela Eduarda, 12.


Em Peixinhos, os trabalhos são coordenados pelo Centro de Cultura Luiz Freire e as atividades acontecem no espaço do Grupo Comunidade Assumindo suas Crianças (Gcasc). Já em Campo Grande, há dois pontos de atuação do Ciranda. Um na beira do Canal do Arruda e o outro na pracinha reformada pelo projeto na comunidade Cidade de Deus. Quem comanda as ações por lá é a Usina da Imaginação, que atua em conjunto com o coletivo Favela News.

BRINCADEIRA SEGURA

“As crianças pequenas sempre estão nas ruas. Ela já estão acostumadas a transformar dificuldade em criatividade. O que precisamos é melhorar a qualidade dos espaços públicos para que elas possam brincar com mais conforto e segurança”, afirma Okado do Canal, artista que integra o Favela News. O grupo tem apostado em produções audiovisuais para inserir ainda mais a comunidade no projeto. Na pracinha, acontecem também sessões de cineclube e o espaço Ponto do Criar, que além de contação de histórias, abriga reuniões com as mães para troca de experiências e informações sobre os cuidados com a primeira infância.

Em paralelo à atuação diretamente nas comunidades, o Ciranda quer garantir a atenção à primeira infância no campo da gestão pública, pressionando as autoridades municipais por melhorias nos serviços oferecidos. No mês passado, o movimento promoveu uma audiência pública para levar a discussão para dentro da Câmara dos Vereadores do Recife. A ideia de uma cidade inclusiva para as crianças precisa ganhar eco também em quem faz e aprova as leis nessas cidades.

“É preciso entender que elas não são os futuros cidadãos. São cidadãos ativos hoje e, por isso, precisam ser considerados na hora de definir as prioridades da gestão. Elas têm voz, desejos e necessidades”, reforça Natália Correia, que também integra o Favela News. O projeto aproveita a discussão do Plano Diretor do Recife, que está em curso, para inserir propostas focadas no atendimento às crianças de 0 a 6 anos. O momento não poderia ser mais oportuno.


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