Jornal do Commercio

Cultura Popular

Seu Martelo e a escravidão de ser um Mateus do cavalo-marinho

Numa casa pequena, colorida e sincrética, Sebastião, o Seu Martelo, se reencontra todo dia com a arte de ser nosso palhaço popular

Mateus Araújo

Publicado em

Seu Martelo, aos 78 anos, reclama não ser Patrimônio Vivo de Pernambuco
Seu Martelo, aos 78 anos, reclama não ser Patrimônio Vivo de Pernambuco
Helia Scheppa/Divulgação

Bastou uma mão esfregada sobre o rosto, melada de carvão, para que o Mateus assumisse de vez a figura de entrevistado. Ele já havia dado sinais de presença desde o encontro com Seu Martelo, em pleno comércio de Condado, Zona da Mata de Pernambuco. Estava nos olhos vivos – um círculo na cor de mel com auréola azul –, na roupa estampadíssima e no corpo curvado do seu intérprete, mas saltitou de vez quando o brincante começou a desenhar no rosto a máscara centenária, criada e vestida pelos caboclos do nosso Nordeste, boias-frias de canaviais. “A vida de um Mateus é uma vida de escravo”, resume sem pestanejar o misto de homem e personagem, um dos mais antigos Mateus da cultura popular brasileira.

Martelo, que herdou esse apelido do pai (ele se chama, na verdade, Sebastião), tem 78 anos e desde os 10 brilhava os olhos diante das sambadas de cavalo-marinho nas vilas e terreiros da Zona da Mata, região onde nasceu e vive até hoje. Cresceu entre as plantações de cana, na comunidade Gambá, em Goiana, e partiu com os pais e os irmão num percurso comum a muitos outros que ali moram. Seguindo o circuito dos canaviais em plena decadência econômica, à procura de emprego e sobrevivência, Martelo foi vivendo nos engenhos e arruados dali, até chegar de vez a Condado, em 1957. “Eram oito filhos. Hoje só vivem eu e uma irmã, que mora em Camaragibe. Meus pais e os outros irmãos morreram, doentes, de tanto comer barro”. Foi assim que tentaram se aguentar entre a fome e assim que se desfizeram pela fome. 

Ainda menino, a rabeca, o pandeiro, o ganzá e o reco-reco chamavam atenção dele. Contrariando a regra de que criança não podia ficar na rua até tarde, Martelo se escondia por trás do banco de músicos – a orquestra do folguedo – todas as vezes que o “juiz de direito” chegava na festa. Foi decorando as loas, aprendendo todos os passos e se divertindo com a arte da palhaçada, feita de risos e sustos do Mateus, que o homem descobriu sua vocação. “Mateus tá no cavalo-marinho como o palhaço tá no circo”, explica, pragmático, o senhor de mungangas e gestos caricatos, um dos tantos pícaros que estão em referências nas obras de Hermilo Borba Filho e Joaquim Cardozo. 

  •  - Foto: Hélia Scheppa/JC Imagem
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“Pra você ver como são as coisas: antigamente, a gente começava a ensaiar no mês de Sant’Ana (o mês de julho, no qual se comemora o dia da avó de Jesus) todinho. Todo sábado a gente se juntava a girar a roda (como os brincantes costumam chamar a brincadeira). Hoje, o povo não ensaia mais”, critica seu Martelo, que já passou por oito grupos de cavalo-marinho. Hoje faz parte do elenco do Estrela de Ouro, e há dois anos deixou de ser caboclo de lança, já que as roupas do folguedo são caras para ser compradas e confeccionadas.

De memória firme e narrador de causos fantásticos, o senhor serelepe, com dialeto próprio, vive numa casa azul piscina, de um único quarto, sala e cozinha, com meias-paredes, nas quais coleciona fotos e cartazes estampando sua caretas e piruetas de brincante, ao lado das imagens de Santa Luzia, do Sagrado Coração de Jesus e da Imaculada Conceição. Mora com sua segunda esposa, dona Severina, crente na Virgem Maria e apaixonada pelas brincadeiras do marido, com quem teve quatro filhos. “Trabalhei a vida inteira cortando cana. Me aposentei assim. E, quando eu ia, deixava a mulher em casa com os meninos e levava um caneco pequeno com leite ninho. Ela e os meninos ficavam sem nada pra comer. Chegava lá, fazia meu trabalho, e de tarde pedia para o patrão adiantar um dinheiro para comprar comida pra casa”, conta Martelo, que hoje silencia diante do sofrimento de conviver com os surtos de um dos filhos viciado em crack, preso três vezes – e, em uma delas, entregue pela própria mãe para que ele aprendesse a ler a todo custo e “virasse gente direita”.

É com um amor encantado que o casal fala de cavalo-marinho dentro de casa. É a grande diversão deles dois. É Severina quem cuida do marido nos 15 dias de preparação que antecedem a sambada. Além de não poder fazer sexo neste dias, Martelo tem que ter sua roupa lavada separada das do restante da família, com sabão especial. A única mulher que pode fazer isso é a sua esposa. No quarto, os dois dormem em camas de solteiro, para evitar que os sonhos de Martelo atrapalhem o sono de Severina. “Quando eu voltava do cavalo-marinho, dormindo, dava chute e murro nela sem querer, sonhando”, conta o brincante. 

Numa mala “trazida da Alemanha”, um dos lugares que Martelo já viajou para se apresentar, o ator guarda suas lembranças e os registros da vida de brincante. Mesmo sem saber ler, o senhor olha com orgulho todos os livros e reportagens dos quais já foi tema ou personagem. Um dos mais antigos Mateus do cavalo-marinho, ele rompeu os limites do popular e também já adentrou na dança contemporânea. Durante oito anos, dividiu a cena com o Grupo Grial de Dança, em espetáculos como A barca e Castanho sua cor. Martelo cobra o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco que nunca conseguiu receber do Governo do Estado e reclama que “é muito difícil ser Mateus, porque você não é valorizado”. No entanto, renova-se a cada dia, num espírito brincante e alegre, pronto para fazer do terreiro seu grande palco. É o brincante, na sua verdade e paixão, que faz do nosso Natal a festa de todas as gentes. Que faz da rua o grande palco do teatro popular.

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Mateus tá no cavalo-marinho como o palhaço tá no circo.

 

As extensas e alegres oito horas de brincadeira ainda são – mesmo que mais timidamente que no passado – a alegria das noites de Natal da Zona da Mata de Pernambuco. Em frente às casas de platibandas coloridas e espontaneamente naïf, a poeira ofusca as luzes das gambiarras, acinzenta os cabelos e dá sinal de que o terreiro é do cavalo-marinho, Patrimônio Imaterial do Brasil, reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico (Iphan) na última quarta. Entranhado na cultura dos caboclos e ex-escravos, o folguedo é o mais genuíno teatro popular do Nordeste do Brasil, permeando o universo folclórico e fantástico da oralidade dos nossos interiores. 

Como explica a doutora em história, Maria Ângela de Faria Grillo, no artigo Cavalo-marinho: as representações do povo através do folguedo pernambucano, a brincadeira é inspirada nas festas de reis, “regada de significados e tem como enredo lendas, romances, narrativas heroicas de figuras fantásticas e animais glorificados”.

Personagem indispensável e a mais carismática no cavalo-marinho, o Mateus é o grande palhaço desse teatro popular. De caráter pícaro, é ele quem conduz o espetáculo, arrancando gargalhadas da plateia, encantando crianças, adultos e idosos. Mateus está para nossa dramaturgia como o Arlequim está para a Commedia dell’Arte, a comédia popular italiana. Ambos erguem-se pela máscara, grande trunfo e alma dos personagens, exploram dialetos regionais, a improvisação e são reis na acrobacia. Mais que isso: os dois papeis são vividos por atores como um sacerdócio. Eles crescem e vivem para suas máscaras. 

Confira vídeo do espetáculo Castanho sua cor, do Grupo Grial, com participação de Seu Martelo: 

Região que guarda como tesouro o cavalo-marinho, a Zona da Mata é o grande palco desse folguedo em Pernambuco. Nas suas casas, a tradição vai se mantendo, enfrentando o tempo e os percalços. Longe de ser apenas uma profissão, a brincadeira é, acima de tudo, devoção. É, primeiramente, um grande amor. 

Essa brincadeira profundamente nordestina tem influência extraterritoriais e carrega consigo a essência satírica do povo. “No cavalo-marinho, assim como na Commedia dell'Arte, é possível perceber a existência da sátira tanto dos patrões como dos empregados”, escreveu Ana Caldas Lewinsohn em O ator brincante – no contexto do teatro de rua e do cavalo marinho. “A proximidade com o ritual, não torna a brincadeira uma coisa mais séria, mas pelo contrário, nela existe uma mistura dinâmica entre o mundo sagrado e o profano, que circula muito naturalmente”, completa ela, que ainda ressalta a relação do teatro popular com a comemoração de plantio e nascimento.

Em ambos teatros cômicos – o nordestino e o italiano – a dramaturgia é criada a partir de blocos independentes. Isso favorece a improvisação do ator e as interferências externas, além de facilitar “o acompanhamento e entendimento do espetáculo por um público que pode chegar a qualquer momento da apresentação”, pontua Ana Caldas.

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