Jornal do Commercio

LITERATURA

Entrevista com Carlos Mendes de Sousa sobre Clarice Lispector

O pesquisador português falou ao Jornal do Commercio sobre a presença das artes plásticas na sua trajetória

Diogo Guedes

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É irônico que os mais recentes livros sobre Clarice sejam de nomes estrangeiros como o americano Benjamin Moser e o português Carlos Mendes Sousa (de Clarice Lispector - pinturas) – ainda que o brasileiro Benedito Nunes permaneça clássico. Na entrevista abaixo, o pesquisador lusitano comenta que a relação da autora com seus quadros nem sempre era leve e ainda lembra como ela foi um tema formidável para retratos de outros artistas.

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JORNAL DO COMMERCIO - Você é um dos maiores estudiosos da obra de Clarice Lispector. Como foi seu primeiro contato com a autora? Ainda se mantém essa fascinação inicial da sua obra?
CARLOS MENDES DE SOUSA -
O primeiro contato com a obra de Clarice foi há muito anos, quando eu era estudante em Coimbra. Não foi nas aulas que me foi revelada a obra da autora de A hora da estrela; tratou-se de uma descoberta puramente casual, numa biblioteca da Faculdade de Letras, quando eu procurava livros para um estudo sobre José Lins do Rego. Na altura, em 1979, Clarice ainda não era muito conhecida em Portugal, como passou a ser nos últimos tempos. Muita água correu a seguir a esse longínquo ano. Mais tarde, dediquei-me de alma e coração à obra de Clarice, fazendo o meu doutorado sobre a sua obra. Revisitando-a tantas vezes, em trabalhos de pesquisa e na escrita de ensaios, mantenho a mesma fascinação da primeira vez, fruindo imensamente a sua escrita.

JC - Em Clarice Lispector - pinturas, a ideia é estudar um aspecto menos conhecido da trajetória de Clarice. Como seus quadros se relacionam com sua obra escrita? Os livros podem ajudar a entender as pinturas, ou vice-versa?
SOUSA -
Os quadros podem iluminar alguns aspectos da leitura da obra extraordinária da escritora. Na verdade, é difícil separar as coisas. É difícil desligarmos a vasta produção literária de Clarice desta sua faceta como pintora ocasional. Existe uma inter-relação estreita e é por isso que os livros ajudam a ver melhor os quadros. Estamos diante de duas faces de um mesmo processo, o processo criativo de Clarice. O objetivo primeiro do meu livro foi o de divulgar as pinturas de Clarice, mas era inevitável que o livro desse conta do modo como o impacto visual se manifesta nos mais diversos planos da obra.

JC - Você tem um quadro preferido entre os que ela fez? Ela mesma tinha uma obra preferida?
SOUSA -
Vejo o conjunto das pinturas como um todo e é-me difícil isolar um quadro. Da leitura que faço, creio que se perceberá essa ideia de coerência. Gostaria ainda assim de destacar os dois quadros que pertencem ao acervo da escritora no IMS, porque são menos conhecidos que os quadros do arquivo da Casa de Rui Barbosa. São pinturas que remontam à década de 1960. Um deles chama-se Interior de gruta e está muito próximo da Gruta de 1975 (arquivo FCRB). O outro não tem título. No caso deste quadro sem título, gosto particularmente do efeito cromático das pinceladas, em desalinho e entrelaçamento, e gosto do diálogo que o quadro estabelece com fragmentos da obra; penso em concreto em descrições de A maçã no escuro ou em passagens de Água viva.
Não conheço da parte de Clarice nenhuma declaração que revele uma predileção por um dos quadros pitados por ela. Existem, sim, referências a quadros específicos. Num texto que foi escrito para ser lido no Congresso de Bruxaria, em Bogotá, reporta-se ao quadro que recebe o nome “Medo”, e em Um Sopro de Vida, pela voz da personagem Ângela Pralini, refere-se explicitamente ao quadro “Gruta”, de 1975.

JC- Clarice dizia que a pintura era a atividade mais pura da sua vida. Era para ela uma forma de fugir da angústia da escrita? Por que, na sua visão, pintar era algo tão leve para ela?
SOUSA -
Clarice diz que a pintura era para ela uma forma de descontração e contrapõe essa atividade ao acto da escrita, mais tormentoso. No entanto, é interessante ver que, maioritariamente, os quadros de Clarice não revelam um mundo de levezas. Veja-se o que ela disse sobre o quadro intitulado Medo; afirmou que esse quadro arrancou de si “todo o horror que um ser sente no mundo” para acrescentar: “olhar esse quadro me faz mal”. Os quadros provocam alguma estranheza a quem olha para eles. Mas nessa mesma estranheza eles são absolutamente claricianos. Podemos inclusivamente encontrar neles marcas de contaminação (de diálogo) com a coisa literária, desde os títulos que Clarice escolheu à forma como inscreveu esses nomes nos quadros, muitas vezes com rasuras e acréscimos, como se estivesse a trabalhar num manuscrito ou num datiloscrito.

JC - Na obra, você mostra que Clarice sempre viveu ao redor do ambiente das artes plásticas e era admiradora de diversos artistas e lia sobre a crítica de arte. Quais eram os pintores preferidos dela? Algum deles foi uma influência no trabalho delas - tanto nos livros como nos quadros?
SOUSA -
Há um caso curioso que eu trato no meu livro que é a referência a Chagall em vários lugares. Tanto na obra como em declarações em entrevistas refere a predileção por este pintor. O que surpreende é o fato de a pintura de Chagall nos parecer bastante distanciada do mundo clariciano, o mundo dos seus livros ou o mundo dos seus quadros.

JC - Clarice também construiu um romance em torno desse campo, Água viva. É um retrato fiel do processo de pintura da escritora e do seu pensamento sobre a arte?
SOUSA -
O processo de escrita desse livro publicado em 1973 foi muito doloroso para Clarice. Houve mais do que uma versão do livro com nomes diferentes. A versão final é muito depurada em relação às anteriores. Não se pode dizer que seja estritamente um livro centrado no processo da pintura. Tematiza-se nele o processo de escrita e também o processo da pintura. Como em muitas outras obras de Clarice, também aqui há reflexões sobre a existência, sobre o ser e, naturalmente, sobre a criação. É nesse sentido que aparece também a reflexão sobre a pintura.

JC - Clarice também foi alvo de fascínio de diversos pintores. Que retrato melhor mostra a Clarice que se revela nos livros? Ou é justamente a incapacidade de apreender a escritora que revela sua essência?
SOUSA -
A dimensão esfíngica, que a obra também contém, está presente em muitas fotos, assim como em muitos retratos feitos por pintores. A própria Clarice reflete sobre a dificuldade dos pintores em captarem a expressão nos retratos. Eu gosto especialmente do retrato belíssimo feito por Ceschiatti. Onde encontrar Clarice? Concordo totalmente com a ideia de que o verdadeiro retrato é impossível de captar.

JC - Figuras da escrita, que saiu aqui ano passado, é uma grande análise de toda a produção da autora. Clarice se revela mais quando olhada assim de perto ou continua como a esfinge que ela mesmo projetou? Ainda crê que restam traços da sua obra para serem analisados, ao menos por você?
SOUSA -
Penso que não se pode tornar totalmente nítido aquilo que não é do domínio do preto e branco, aquilo que não se cria com cores básicas. E é isso que acontece com a obra de Clarice, que é complexa e que exige contínuos e renovados impulsos de releitura. Eu próprio quando releio textos de Clarice sinto que há tantas pistas possíveis para seguir. Essa é a grandeza da verdadeira literatura.

JC - O que pensa dos demais trabalhos sobre Clarice, como a popular biografia de Benjamin Moser?
SOUSA -
Clarice tem sido muito estudada, no Brasil e exterior. É difícil contabilizar e acompanhar tudo. Há trabalhos excelentes sobre Clarice, desde uma obra de referência, ainda hoje fundamental, que é a de Benedito Nunes. Quanto às biografias, as mais importantes (de Teresa Montero, de Nádia Batella Gotlib e de Benjamin Moser) são muito sérias, ajudam-nos muito a conhecer a figura fascinante de Clarice, e complementam-se. Conheço bem o livro de Benjamin Moser. Conheci primeiro na versão inglesa (fiz parte da banca de doutorado de Moser, na Univ. de Utrecht, onde ele apresentou o trabalho). O livro, na tradição das biografias anglo-saxónicas, além do mérito da investigação levada a cabo, tem a grande virtude de ser muito bem narrado. O modo de narrar agarra o leitor desde o início.

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