Dança

O Cão Sem Plumas: Deborah Colker se inunda das águas do Capibaribe

Espetáculo estreia dia 03 de junho, no Teatro Guararapes

Márcio Bastos
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Márcio Bastos
Publicado em 28/05/2017 às 8:00
Cafi/Divulgação
Espetáculo estreia dia 03 de junho, no Teatro Guararapes - FOTO: Cafi/Divulgação
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O rio Capibaribe pode ser considerado a aorta – mais importante artéria do sistema circulatório – de Pernambuco. Suas águas cortam do Agreste ao Litoral do Estado e ajudaram a construir a história econômica e cultural da região. Os povos ribeirinhos compõem uma complexa miscelânea da experiência humana que circunscreve tanto o espírito de uma região quanto carrega elementos universais. Objeto de inspiração para muitos artistas, foi traduzido com maestria por João Cabral de Melo Neto em O Cão Sem Plumas. A obra, escrita entre 1949 e 1950, continua pulsante e caudalosa, como o próprio rio, e agora é traduzida para os palcos através dos corpos dos bailarinos da Cia Deborah Colker. O espetáculo, que leva o nome do poema, estreia nacionalmente sábado (3/06), 21h, no Teatro Guararapes.

A dança de Deborah Colker tem forte ligação com a literatura, a exemplo dos espetáculos Tatyana, baseado na obra de Evguêni Oniéguin, e Belle, inspirado em La Belle Du Jour, de Joseph Kesse. Para seu novo espetáculo, buscava um trabalho que a ajudasse a capturar elementos da essência do que é ser brasileiro, da fibra e da água que compõem seu povo. Foi então que lembrou do impacto que O Cão Sem Plumas lhe causou quando o leu pela primeira vez, em meados dos anos 1980. Quanto retornou à obra, vinte anos depois, a força da literatura do escritor pernambucano permanecia intacta. Foi aí que soube que este era o curso pelo qual deveria remar.

“João Cabral de Melo Neto olha para o Rio Capibaribe e fala sobre a região que ele corta, com suas especificidades, ao mesmo tempo em que fala de todos os rios do mundo; que fala sobre o ser humano. ‘O que vive é espesso como um cão, um homem, como aquele rio’. É sobre o São Francisco, o Tâmisa, Sena, Amazonas e sobre as populações ribeirinhas do globo, pessoas esquecidas que sofrem tantas privações. Ele está falando de onde começa o homem, naquela terra, na lama, no rio. É sobre os homens-caranguejos e é sobre todos nós”, reflete Deborah.

Para compor a dramaturgia do espetáculo, ela fez três visitas a Pernambuco acompanhada do amigo Cláudio Assis, que tem participação fundamental no espetáculo (ver vinculada). A última delas foi em novembro do ano passado, quando a companhia fez uma residência artística no Estado, visitando cidades do percurso do rio e gravando imagens que irão compor a encenação.

O ápice desse processo foi uma apresentação nas águas em frente ao Marco Zero, na área de encontro do rio com o mar, onde os artistas se apresentaram em cima de uma balsa.

RESIDÊNCIA

“Quando fui a Pernambuco da última vez, achei que tinha 80% do espetáculo pronto, mas a estada transformou muita coisa. Quando fomos a Belo Jardim, vimos o rio seco, um Agreste praticamente Sertão e ao mesmo tempo com uma beleza singular. Foi uma turbulência positiva. Refizemos muita coisa e a troca com as pessoas e os artistas populares, através dos saraus, nos influenciou bastante. Esse encontro entre o coco, maracatu, teatro, ruas, a geografia, nossa vivência no mangue, filmagem nos Coelhos; acredito que tudo isso transformou o olhar dos bailarinos e ficou impresso na pele”, reflete.

Nesse sentido, ela considera que o espetáculo consegue capturar uma visão delicada (e apaixonada) da obra de João Cabral, que ela considera o grande timoneiro do projeto. “Antes de tudo, o que temos é um espetáculo sofisticado, mas popular. A emoção permeia cada passo”, enfatiza.

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