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VIOLÊNCIA

Recifense só não tolera o estupro

Pesquisa da Uninassau ouviu moradores da capital sobre temas relativos a direitos humanos

JC Online

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Assassinato é o segundo crime mais repudiado pelo recifense
Assassinato é o segundo crime mais repudiado pelo recifense
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O recifense não tem sentimento de vingança contra criminosos, a não ser que os criminosos sejam estupradores. Para esses, a maioria defende, sem o menor pudor, a pena de morte. É o que mostra uma pesquisa realizada pelo Instituto Maurício de Nassau nos últimos dias 24 e 25, em que foram ouvidas 624 pessoas na cidade. O estudo visa entender a percepção do morador da capital em temas relativos a segurança pública e direitos humanos.

Para 69,7% dos recifenses, a pena de morte é desejável para alguns crimes. O principal deles é o estupro, com 54,4%. Nem mesmo homicídio (18,4%), latrocínio (5,8%) e pedofilia (4,6%) provocam tanta ojeriza a ponto de se desejar a morte do criminoso, de acordo com a pesquisa. “O cidadão observa que o estupro é um forte atentado contra a individualidade, principalmente a feminina. O homicídio, por exemplo, é condenável, mas tem um fim. O estupro gera consequências com as quais a vítima vai conviver pelo resto da vida”, explica Adriano Oliveira, professor de ciência política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e um dos coordenadores do estudo.

PERCEPÇÃO

Uma das perguntas mais polêmicas das mesas de bar e redes sociais na atualidade – “Bandido bom é bandido morto?” –divide os entrevistados: 44,2% dos moradores da capital acham que “sim, bandido bom é bandido morto”, enquanto 36,4% cravam “não” e 17,3% ficam no “talvez”. “Eu esperava um número mais alto de pessoas respondendo ‘sim’. Esse resultado indica que existe o espaço para avançar ainda mais na discussão de políticas de direitos humanos, de convencer as pessoas de que não é o caso de ‘defender bandidos’, mas de pensar no conjunto da sociedade, para que existam menos crimes”, diz Edna Jatobá, articuladora do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH) no Estado e advogada do Gajop. 

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A recente crise nacional no sistema penitenciário parece, segundo o estudo da Uninassau, ter motivado um olhar diferente para dentro do cárcere. Dos entrevistados, 62% desejam que os agentes penitenciários respeitem o direito dos presos, enquanto 29,8% discordam. “Os verdadeiros direitos devem ser respeitados, não o que a esquerda convenciona chamar de direitos humanos, muitas vezes concedidos por estipulação”, diz o professor de filosofia da UFPE Rodrigo Jungmann. “Integridade física, por exemplo, é um direito do detento: o direito à vida. Visita conjugal, não, pois é uma questão de política carcerária. Depende de uma decisão.”

Mais: 47% dos habitantes da capital não concordariam com o uso de força letal pela polícia no caso de controle de uma rebelião em uma unidade prisional do Estado. “O Carandiru é uma marca que ninguém quer”, comenta Adriano Oliveira, referindo-se à morte de 111 presos na Casa de Detenção de São Paulo, em 1992, após uma rebelião, quando a polícia invadiu o local. “No início deste ano, a mídia mostrou um sistema onde as pessoas vivem em condições subumanas. De uma certa forma, desfez-se parte daquela ideia de que estão apenas ‘sugando’ o Estado. 

Maioria das pessoas entrevistadas se diz seguidor da religião católica (59,1%), com renda familiar até cinco salários mínimos, ou cerca de R$ 5 mil (84,1%), com ensino médio completo e superior incompleto (51,6%). “Uma coisa que salta aos olhos na pesquisa é que o cidadão está refletindo sobre a dignidade humana”, completa Adriano Oliveira.



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