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É preciso colocar os pés na rua e ser pedestre

Roberta Soares

Roberta Soares

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Publicado em 05/11/2017 às 16:00

Foto: Diego Nigro/JC Imagem

 

É preciso colocar os pés na rua. A frase de Clarisse Linke, diretora do ITDP (Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento), diz muito sobre o momento em que vivemos, numa semana em que vimos o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) ressuscitar punições previstas há 20 anos para os pedestres e ciclistas, que de tão surreais, nunca conseguiram ser efetivadas na prática. Além de comprometer ainda mais a já comprometida imagem da legislação de trânsito brasileira, desacreditada em alguns casos por criar regras inócuas – quem não lembra dos kits de primeiros socorros ou da mudança dos extintores de incêndio? –, desestimula a discussão sobre a necessidade do caminhar nas cidades urbanas.

Uma discussão ainda atrasada, mas que vem, mesmo que lentamente, ganhando força nos movimentos pela mobilidade a pé. Por isso e por outras razões, a grita de entidades ligadas à defesa da mobilidade urbana coletiva, menos motorizada, foi geral no País. Não só de associações de ciclistas, mas das que fazem a defesa da caminhabilidade no Brasil, que crescem a cada ano. As de transporte público também, afinal, ser passageiro significa, obrigatoriamente, ser pedestre.

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E o sentimento é o mesmo para todos: a punição está chegando antes que as regras sejam claras. Ou seja, estamos cobrando algo sem que nada ou muito pouco esteja sendo oferecido em troca. A intenção do Contran, talvez – como afirma o superintendente da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), Luiz Carlos Néspoli –, seja a redução de atropelamentos, os maiores produtores de mortes e sequelas no trânsito, mas terminou por transformar o pedestre de vítima a culpado. “Antes de ser vítima do acidente de trânsito, o pedestre é vítima das condições físicas e ambientais a que está sujeito nas ruas das cidades. É este ambiente hostil e confuso que leva o pedestre a fazer o que faz, constrangido diariamente pelos veículos e, a partir de agora, se a resolução persistir, também pela fiscalização”, dispara Néspoli.

 

Rua Joel Carlos Borges, na Zona Sul de São Paulo, é um bom exemplo de Rua Completa feira só com tinta e sinalização. Pedestres, que são maioria, ganharam prioridade. Fotos: Pedro Mascaro/Divulgação WRI Brasil

Outros nomes de peso quando o tema é a mobilidade expressam a mesma indignação. “Com este ambiente absolutamente hostil nas cidades, as autoridades ainda querem castigar o pedestre? Creio que as pessoas que caminham desrespeitam a sinalização simplesmente para conseguir cumprir seus trajetos porque as calçadas são péssimas, os semáforos de pedestres são muito demorados e as faixas de travessia estão onde menos atrapalham os veículos e não onde é preciso – e mais lógico – atravessar”, critica Meli Malatesta, arquiteta e urbanista paulista e uma das maiores defensoras da mobilidade ativa, especialmente a pé.

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Antes das regras, a infraestrutura ideal. E para começar, que tal propagar pelo País a ideia das Ruas Completas, cujo conceito é dividir as vias justamente entre todos, dos mais variados modos de transporte e das mais variadas idades? As Ruas Completas são desenhadas para dar segurança e conforto a todas as pessoas, distribuindo o espaço de maneira mais democrática. E o que é melhor: não há uma solução única, um desenho único. As melhores alternativas podem ser associadas. É claro que a premissa é priorizar os deslocamentos realizados por transporte coletivo, a pé e de bicicleta, mas os automóveis também têm vez. A diferença é que circulará com velocidade mais baixa.

 

 

O conceito das Ruas Completas tem sido trabalhado no País pela WRI Brasil, entidade multinacional que estuda e implementa projetos de mobilidade sustentável. E tem a maleabilidade de ser adaptado para as necessidades de cada bairro ou região, apoiando a diversidade de uso dos solos, mesclando residências, comércio e serviços para transformar as ruas num ligar de permanência das pessoas. Não apenas de passagem. Tudo feito a partir do envolvimento com moradores e grupos da comunidade para entender as prioridades.

 

 

Padrões das Ruas Completas de Boston, nos EUA. Fonte: Boston Transportation Department, 2013

 

 

Mais quais as vantagens das Ruas Completas? Segundo a WRI Brasil, exatamente o sentimento de utilização das ruas de forma democrática, já que elas estimulam a segurança e saúde, tornando os espaços urbanos mais compartilhados e vivos. Com acesso a ruas mais completas, as pessoas se sentem seguras para adotar padrões de deslocamento mais sustentáveis e com menos impacto climático, como a bicicleta e a caminhada. Crianças e idosos, por exemplo, se relacionam melhor com a cidade. O transporte coletivo também passa por melhorias, seja na qualidade do acesso às paradas ou nos ganhos com as vias exclusivas.

RECIFE TERÁ UMA RUA COMPLETA

O Recife terá uma Rua Completa. Ainda não há prazo sequer de início, mas o modelo será implantado na Rua da Hora, no Espinheiro, Zona Norte do Recife, onde o volume de pedestres é grande. A capital é uma das dez cidades brasileiras, além do Distrito Federal, que aderiram, em abril deste ano, à Rede Nacional Para a Mobilidade de Baixo Carbono, formada pela WRI Brasil em parceria com a Frente Nacional de Prefeitos (FNP). Uma forma de disseminar o entendimento do conceito pelo País. A WRI Brasil oferece apoio técnico às cidades.

 

O EXEMPLO DE SÃO PAULO
Uma das vantagens do conceito das Ruas Completas é que elas não precisam de grandes investimentos em infraestrutura. Podem recebê-los, é claro, mas mesmo sem grandes recursos têm como sair do papel. A Rua Joel Carlos Borges, próxima à Estação Berrini (CPTM), na Zona Sul de São Paulo, é um bom exemplo. O projeto de requalificação da via foi separado em diferentes fases e, na primeira, já executada, foram utilizados materiais de baixo custo e rápida implantação, como tinta e sinalização. Numa segunda etapa, a prefeitura está analisando os deslocamentos.

Os números da via já mostram que são 22,5 pedestres para cada carro nos horários de pico. Ou seja, é claro que a vocação da rua é atender à alta demanda de pessoas caminhando. O limite de velocidade reduzido, de 20 km/h, permite que ciclistas e carros compartilhem a faixa de rolamento existente. É uma rua completa porque o novo desenho distribui o espaço viário de acordo com o real uso, mesmo que não disponha de faixa dedicada ao transporte coletivo, para bicicletas ou outras soluções de desenho viário.

CONFIRA A RESOLUÇÃO 706 DO CONTRAN QUE PUNE OS PEDESTRES E CICLISTAS:



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